Rocinha: Mudam os protagonistas políticos, mas o desfecho final é sempre o mesmo (RJ)

(Divulgação | Original rm Fazendo Media)

Por Cléber Araújo

Valão da Rocinha sob as construções habitacionais / Fonte: Territórios em Movimento

O cenário se repete; as cenas não representam nenhuma novidade histórica; desfocados, os atores sociais encenam o drama cotidiano roteirizado pelo descaso político; os protagonistas dessa novela, interpretam papéis de heróis sociais – arrancando aplausos dos espectadores – mas por detrás dos bastidores, se revelam os verdadeiros malfeitores dessa história, que se repete a cada mandato político.

Assim é a realidade vivenciada na Favela da Rocinha: uma novela que se repete, mas que não vale a pena ver de novo.

Vamos aos fatos:

Conhecida internacionalmente, a Rocinha ficou famosa tanto pela sua dimensão demográfica como pelo seu histórico de violência urbana, principalmente na década de 80. No decorrer de anos, inúmeras vezes o nome Rocinha foi destaque nos jornais como manchete policial, tendo como pauta os assuntos: tráfico de drogas, tiroteios, prisões e mortes.

A proposta política de pacificação, anunciada no governo de Sérgio Cabral Filho, prometia mudar essa realidade, garantindo segurança para os moradores da comunidade e dos bairros vizinhos. A ocupação militar (11/2011) e a instalação da UPP da Rocinha (09/2012) renderam muitas matérias jornalísticas otimistas e aplausos da sociedade, mas na prática não funcionou. Junto com a especulação imobiliária na comunidade, aumentou os confrontos entre polícia e bandido e a insegurança dos moradores.

A violência não é o único problema reprisado na comunidade. Problemas referente a infraestrutura continuam a causar transtornos na vida do morador, apesar dos recentes investimentos de verba pública através das obras do PAC.

Andando pela Estrada da Gávea, principal via de acesso à Rocinha, parece que o sistema de esgoto da comunidade funciona dentro do padrão da cidade. Andando pelos becos, a realidade é totalmente diferente. O esgoto corre a céu aberto proliferando doenças, alergias, insetos e ratos. O alto índice de tuberculose na comunidade está concentrado, principalmente, nas habitações próximas as valas abertas. Habitações essas, afetadas pela umidade ocasionada pela proximidade com as valas.

As valas foram soluções criadas pelos moradores para suprir uma demanda não atendida pelo Estado. Passados anos, elas continuam a compor o cenário cotidiano da Favela, que cresceu demasiadamente da mesma forma que nasceu: sem planejamento urbano.

O problema com saneamento básico vai além do esgoto a céu aberto. A falta de abastecimento de água é um problema que se intensificou nos últimos meses. A cada semana parece que alguns pontos da comunidade são escolhidas para ficar sem abastecimento. Enquanto algumas regiões recebem água em abundância, outras ficam dias sem receber, levando as pessoas a recorrerem às bicas remanescentes na comunidade, de uma época que não deixou saudades.

Sem um pingo de dignidade, moradores sem água em casa esperam na fila da bica/ Foto: Michel Silva

Pessoas esperando na fila sua vez de pegar água, remonta uma cena que era muito comum até os anos 80, mas que vem sendo superada através de projetos da CEDAE em parceria com os Governos, como Proface e Prosanear – que longe de prestar um serviço de qualidade, ajudou a amenizar esse quadro de precariedade.

Mas, por que logo em ano de eleição esse problema se intensificou? Curioso, é que o atual Governador do Rio, Luiz Fernando Pezão – que vai disputar as eleições na tentativa de se “reeleger” – veio a comunidade, averiguou o problema e depois de um simples telefonema anunciou a solução: A Rocinha vai receber a maior elevatória de água entre os complexos de favelas do Rio. Que bacana! Claro que ele não estava sozinho, com ele estavam as lideranças comunitárias que são “o braço” do Governo dentro da Rocinha.

Nessas cenas, o discurso político pode ser diferente, mas a estrutura utilizada é a mesma: É preciso um problema, para uma promessa de melhoria. Isso claro, tem que acontecer num contato pessoal com os moradores que passam determinada dificuldade, para ser visto dando e recebendo tapinhas nas costas de seus apoiadores locais – afinal, uma mão lava a outra.

Infelizmente, essa é a dramaturgia política no cenário social da Rocinha – assim como em outras comunidades periféricas – uma novela repetida inúmeras vezes, com protagonistas políticos diferentes, mas com o mesmo desfecho final.

*Fonte de imagens e link do vídeo:

Territórios em Movimento

Viva Rocinha

Salve a Rocinha

(*) MAtéria publicada originalmente no Barraco @ dentro.

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