BRT remove 194 famílias do Recreio sem necessidade (RJ)

Por O Dia

Famílias na Zona Oeste optaram por indenização ou por condomínio Minha Casa, Minha Vida

Rio – Os pedaços de madeira em meio à vegetação de médio porte são os únicos indícios de que ali já foi uma comunidade. Vila Recreio II, na Avenida das Américas, no Recreio dos Bandeirantes, deixou de existir em nome de um projeto da prefeitura: o corredor de ônibus Transoeste. O BRT, que nunca passou no conjunto de casas, foi o motivo para a remoção de 194 famílias da área, há quase três anos. Desde então, o terreno continua como ficou após a construção da via expressa: vazio, e sem expectativa de uso. A desocupação do espaço levou embora sonhos como o do jardineiro Jorge dos Santos, 53 anos, que estava com a família há 16 anos no local.

“Derrubaram a casa com tudo dentro: fogão, geladeira, cama… Resistia a sair e achei que não iam colocar tudo abaixo. Não entendo por que tiraram a gente de lá, se o destino do terreno é ficar cheio de mato. Não sou contra o BRT, mas falaram pra gente que a pista passaria onde fica a comunidade. Nunca passou, e também não fizeram nada até agora”, lamenta Jorge, que morava a cerca de 20 metros da pista do corredor.

Ele e os outros moradores negociaram a remoção com a prefeitura. O jardineiro está no grupo de 140 pessoas que preferiu a indenização. Recebeu cerca de R$ 13 mil, mas se arrependeu porque, para ficar perto de onde morava e manter a rotina de trabalho, começou a pagar aluguel. Com os R$ 420 que gasta todo mês, há cerca de três anos, já se foi todo o dinheiro recebido do município. Outras 54 famílias optaram por ir para condomínios do Minha Casa, Minha Vida, em Campo Grande.
Ao DIA , a prefeitura se defendeu dizendo que a comunidade foi retirada para ceder espaço para o canteiro de obras da duplicação da Avenida das Américas e do traçado de acesso ao túnel da Grota Funda, intervenções realizadas por causa do BRT, e não para passar a pista. O terreno era particular, mas uma parte dele foi desapropriada e passou a pertencer ao município. A Secretaria Municipal de Conservação disse que no espaço está a sede da 18ª Gerência de Conservação, mas O DIA foi ao local e só viu mato.

O pedreiro Jucélio Camilo de Souza, 31, sonha um dia poder voltar para Vila Recreio II com a família. A prefeitura ofereceu R$ 6, 8 mil por sua casa, mas ele recusou. “Com este valor, não compro nem imóvel em favela. Fui para o conjunto que ofereceram em Campo Grande, mas lá é longe do trabalho. Já chorei muito e cheguei a ir para o terreno de madrugada para tentar reocupar. Chega a doer ver o local cheio de mato e abandonado”, disse.

Promotoria investiga remoções desnecessárias

A 8ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania está investigando remoções desnecessárias feitas pela prefeitura. Está na lista, além de Vila Recreio II, uma comunidade chamada Vila Harmonia, também no Recreio dos Bandeirantes. Nesse conjunto, foram realizados, pela Secretaria Municipal de Habitação, 119 reassentamentos. Desses, 67 famílias optaram por indenização e 52 pelo imóvel do Programa Minha Casa, Minha Vida.No local, de acordo com a prefeitura, foram feitos acessos para a Avenida das Américas, além da duplicação da pista lateral.

A vereadora Teresa Bergher (PSDB) também quer saber do município o motivo das remoções. A parlamentar se diz incrédula que famílias foram retiradas de Vila Recreio II para que o local seja um canteiro. “Se isso realmente ocorreu desta forma, é leviano. Vou encaminhar um ofício para a prefeitura solicitando esclarecimentos”.
A retirada de famílias no Rio já acionou o alerta de organismos como a Anistia Internacional. Em fevereiro, a entidade entregou ao prefeito Eduardo Paes a petição da campanha “Basta de Remoções Forçadas!”. No documento, é pedido que sejam adotadas medidas para evitar a saída de moradores das suas comunidades em decorrência de grandes obras.

Mudança gera drama paralelo

A remoção na Vila Recreio II envolve dramas que não se resolvem com indenização ou imóvel novo. Patrícia Paiva de Jesus de Santos, 36 anos, é um exemplo de como a vida pode dar uma reviravolta mais dura do que sair forçada da comunidade onde morava. Seu marido, o ajudante de jardineiro Luciano de Jesus Santos, 38, está preso há pouco mais de um mês por não ter cumprido uma pena de serviços comunitários. A história, que acabou na penitenciária de Engenheiro Pedreira, em Japeri, tem como enredo um mal-entendido provocado pela mudança da família para o conjunto popular, em Campo Grande.

Luciano foi detido em 2010, na comunidade, após se envolver numa briga com familiares e disparar para o alto, sem fazer vítima. Condenado a dois de prisão, ele teve a sentença substituída, por ser réu primário e ter bons antecedentes. Mas é aí que começa o problema. “Ficamos sabendo que o oficial de Justiça foi duas vezes à comunidade, mas não encontrou a gente, porque fomos para o apartamento da prefeitura. A gente não sabia que tinha que ir à Justiça”, contou Patrícia, ao lado dos três filhos.

Em fevereiro, ao chegar na 35º DP (Campo Grande), para registrar ocorrência de agressão, ele foi preso porque não tinha cumprido a sentença. “Estamos passando dificuldade. São três crianças e não tenho como trabalhar. Também não sei como fazer para tirar ele de lá”, disse Patrícia.

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