Ato em área de conjunto habitacional marca dois anos de ação violenta no Pinheirinho (SP)

(Divulgação | Original em Brasil de Fato)

Por Gisele Brito (Rede Brasil Atual)

Vítimas da truculência do governo Alckmin fazem minuto de silêncio e reafirmam disposição em pressionar para que obras de futuros apartamentos saiam logo do papel

Danilo Ramos/RBA

Exatamente dois anos depois da violenta operação de reintegração de posse capitaneada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), com apoio da Justiça de São Paulo, o mato chega a quase dois metros na área onde ficava a ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba. “Tinham tanta pressa de tirar a gente de lá, para fazer isso?”, questiona a costureira Vonide David, 72 anos, que viveu no bairro durante oito anos. “Num lugar com tanta terra vazia, tanta gente sem casa”, observou.Na época, a desocupação deixou entre 6 mil e 8 mil pessoas desabrigadas.

A truculência da operação policial teria desencadeado problemas de coluna em Vonide. Há cinco meses, ela fez uma operação e colocou seis pinos para corrigir uma escoliose. Atualmente, paga R$ 500 pelo aluguel de uma casa com telhas de barro e piso de cimento queimado.

Ontem (22), ela estava entre as 100 pessoas que realizaram uma espécie de “ato de posse” no local onde serão erguidas 1.726 unidades habitacionais do programa Minha Casa Minha Vida para ex-moradores do Pinheiro. O arame que cerca o terreno do futuro conjunto habitacional foi rompido e os manifestantes entraram entoando palavras de ordem como “Com luta, com garra, a casa sai na marra”. O novo bairro deverá se chamar Pinheirinho dos Palmares. As obras devem contar com a participação dos futuros moradores e a expectativa é que os apartamentos fiquem prontos até 2016.

Durante o ato, foi feito um minuto de silêncio. Oficialmente, não houve mortos durante a desocupação. Há relatos, porém, de pessoas que teriam morrido em decorrência de processos depressivos e doenças psicossomáticas. O protesto também lembrou as vítimas de estupro durante a operação, pelos quais estão sendo investigados 14 policiais militares, além de lesão corporal e tortura.

O bairro Putim, onde está localizado o empreendimento, ainda tem características rurais, com gado e cavalos pastando. Distante do centro, o lugar não tem hospitais nem infraestrutura urbana por perto, diferente do terreno onde ficava o Pinheirinho.

“É o que eles sempre quiseram fazer, esconder os pobres. Jogar a gente para debaixo do tapete”, afirma a líder comunitária Tanice dos Santos.

As obras ainda não começaram, mas a comunidade, que se manteve unida durante todo esse tempo, promete que, se nos próximos meses a situação não mudar, eles mesmos tomarão a frente.

“Se não acontecer logo, a gente mesmo invade e faz”, diz o líder comunitário Valdir Martins, o Marrom. Eles também prometem lutar para levar infraestrutura para o bairro. “Nós vamos fazer daqui o bairro mais bonito de São José dos Campos. Vamos mudar isso porque somos trabalhadores”, afirmou Marrom.

O terreno de 1,3 milhão de metros quadrados onde estava instalado o bairro do Pinheirinho ficava em uma região valorizada e pertencia à massa falida da empresa Selecta, do especulador financeiro Naji Nahas. Uma decisão controversa da juíza Marcia Loureiro, da 6ª Vara Cível de São José, ordenou a reintegração que havia sido objeto de negociação e suspensa no dia anterior. Em entrevista a uma emissora local, Marcia afirmou que a operação foi conduzida com “competência e com honra” pela PM.

Desde que as casas foram demolidas, sem que pudessem ser retirados os bens dos proprietários, os moradores vivem em total insegurança.

“Eu fui para o poliesportivo, mas ficavam jogando bombas lá, aquela correria, e eu resolvi sair. Deixei minhas filhas na casa da madrinha e dormi na rua alguns dias, até conseguir alugar um espaço”, conta Joelma Bernardo, 25 anos. A filha mais velha, que na época tinha 5 anos, ainda lembra da fumaça, dos policiais e dos barulhos da desocupação. A mais nova tinha oito meses na época.

Atualmente, os moradores recebem bolsa-aluguel de R$ 500 e estão espalhados por várias regiões da cidade.

Desde que viu sua casa ser demolida com todos os bens dentro, a empregada doméstica e catadora de materiais recicláveis Tânia Martins Reis já morou em cinco lugares e se prepara para mudar novamente. Apesar de o ambiente onde vive ficar longe do centro de São José dos Campos e não ser adequado para uma pessoa asmática como ela, Tânia lamenta ter de voltar a procurar residência.

“A gente não consegue achar nada por menos de R$ 600, R$ 900. E quando acha, quando diz que é do Pinheirinho, não querem alugar para a gente”, lamenta. Ainda hoje ela se assusta quando ouve barulho de helicóptero e chora ao lembrar da desocupação ocorrida há dois anos. “Foram muitos anos recolhendo latinhas de sol a sol para poder construir a minha casinha, que estava toda bonitinha. Foi muito triste ver tudo ali demolido. Eu perdi tudo.”

O Pinheirinho começou a ser ocupado em 2004 e sua população se manteve sempre unida e organizada. Desde o princípio, o movimento criado em torno dele mudou estruturas da cidade. Em 2005, por exemplo, foi instituída a Secretaria de Habitação de São José dos Campos e as primeiras unidades habitacionais com dinheiro do município começaram a ser erguidas.

“O Pinheirinho já mudou muita coisa por aqui e no jeito de outros movimentos se organizarem”, diz Marrom. “Somos um movimento que alcançou solidariedade internacional.”

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