Agora, é nas periferias!

(Divulgação / Original no MTST)

Por Edson Silva, Guilherme Boulos e Guilherme Simões

Embora importantíssima, luta contra a corrupção não pode ser ingênua. Exige expor e debater dominação do Estado pelo poder econômico.

Há pelo menos 25 anos, desde a campanha pelas Diretas, o Brasil não vivia uma mobilização popular como agora. As contagens mais tímidas falam em 1 milhão nas ruas, espalhados em centenas de cidades país afora. O processo desencadeado pela luta organizada pelo Movimento Passe Livre contra o aumento das tarifas do transporte público – especialmente em São Paulo – catalisaram uma mobilização represada.

A vitória do movimento com a revogação do aumento em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país mostrou que a mobilização popular torna possível aquilo que poderia parecer impossível. Há tempos o movimento social brasileiro não obtinha uma vitória tão expressiva, contra governos aparentemente muito fortes.

No entanto, as manifestações que tomaram as ruas a partir da pauta do transporte público desviaram consideravelmente a rota do movimento. Ao lado de demandas populares legítimas e fundamentais como recursos para saúde e educação, contra o investimento público na Copa 2014, contra a violência policial, dentre outras, penetraram no movimento palavras-de-ordem e orientações conservadoras.

A luta contra a corrupção é válida e necessária. Mas nunca é demais lembrar que o golpe de 1964 se valeu deste mesmo mote para a derrubada de João Goulart. E que a UDN (União Democrática Nacional) instrumentalizava esta bandeira para as políticas mais antipopulares e conservadoras. Além disso, preocupa quando vemos que os mesmos setores que historicamente apoiaram a UDN e o golpe militar estão vendo as atuais manifestações com olhos brilhando.

Quem quiser lutar de forma consequente e concreta contra a corrupção precisa levar em conta que o berço da corrupção no Brasil é o financiamento das campanhas eleitorais pelo capital privado, destacadamente as empreiteiras, que ganham muito em troca de suas doações eleitorais. Precisaria considerar ainda que o dinheiro público perdido com a corrupção não chaga às raias da “Bolsa Banqueiro”: o dinheiro jorrado aos especuladores para o pagamento de uma dívida impagável. Apenas em 2013, a média do recurso público perdido com o pagamento da dívida é de R$2,7 bilhões ao dia.

Estas lutas precisam ser travadas. Basta saber se muitos dos que estão hoje nas ruas têm disposição de levá-las adiante, dados os poderosos interesses econômicos que elas contrariam. Além disso, essas bandeiras não podem estar separadas das pautas dos trabalhadores mais pobres de nosso país, que pouco têm aparecido no debate.

Redução da jornada de trabalho sem redução do salário, combate ao extermínio e violência policial nas periferias urbanas, controle sobre o valor dos aluguéis e medidas para a redução do custo de vida, a partir do controle dos preços dos itens da cesta básica são algumas delas. Além da tarifa zero para o transporte público – avançando na conquista já obtida – e da denúncia dos gastos com a Copa, revertendo esses recursos para áreas como saúde e educação.

Entendemos que levantarão essas bandeiras aqueles que são os maiores interessados nelas: os trabalhadores das periferias urbanas. Por isso, a Frente de Resistência Urbana, juntamente com o Movimento Periferia Ativa, estão organizando – com o apoio do Movimento Passe Livre – o redirecionamento das manifestações para as periferias.

Este passo será essencial para buscar dar rumos mais populares e politicamente progressistas para as manifestações que estão sacudindo o país. A oportunidade está aberta e temos a certeza de que os trabalhadores brasileiros saberão aproveitá-la.

Edson Silva, militante da Frente de Resistência Urbana.
Guilherme Boulos é militante da Frente de Resistência Urbana e do Movimento Periferia Ativa.
Guilherme Simões, militante da Frente de Resistência Urbana e do Movimento Periferia Ativa.

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