Prefeitura poderia ter evitado incêndio na favela do Moinho, relatam os moradores (SP)

(Divulgação | Original em Brasil de Fato)

Desde o último incêndio, no dia 22 de dezembro de 2011, havia uma proposta da prefeitura em transferir as famílias para um conjunto habitacional na Vila dos Remédios (SP). Entretanto, “a prefeitura sequer limpou o terreno para dar início à construção das moradias”

Por José Francisco Neto

Incêndio ocorrido na manhã de hoje (17) na Favela do Moinho, região central de São Paulo. Fotos: Marcelo Camargo / ABr

O incêndio foi devastador. Idosos estavam sendo levados em cadeiras de rodas, crianças descalças pisavam em meio à lama e ao entulho dos barracos destruídos pelas chamas e muitas pessoas carregavam o restante dos móveis que ainda restaram.O fogo que atingiu a favela do Moinho na região de Campos Elíseos, no centro de São Paulo, na manhã desta segunda-feira (17) poderia ter sido evitado, segundo os moradores. Desde o último incêndio, no dia 22 de dezembro de 2011, havia uma proposta da Prefeitura de São Paulo em transferir as famílias que foram atingidas para um conjunto habitacional na Vila dos Remédios, na zona oeste. Entretanto, “a prefeitura nem sequer limpou o terreno para dar início à construção das moradias”, relatam.

Mais de 80 barracos foram destruídos, mais de 300 pessoas ficaram desabrigadas, cachorros morreram acorrentados no fogo e uma pessoa foi carbonizada no barraco. É a quarta vez que ocorre um incêndio na ocupação, sendo o segundo em menos de um ano.

As pessoas da comunidade relatam que quem causou o incêndio foi um morador, que chegou em casa drogado, discutiu com a mulher e colocou fogo no barraco. Outros dizem que foi criminoso, pois a área em que se localiza a favela tem sido disputada pela prefeitura e pela iniciativa privada.

“Podem ser inúmeras causas, inclusive criminosa. Ninguém é bobo, aqui é centro de São Paulo”, comenta Fábio Jorge, 30, morador da favela há quatro anos. O seu barraco não foi atingido, pois o fogo destruiu os que estavam embaixo do viaduto Engenheiro Orlando Murgel, na Avenida Rio Branco, porém, ele ajudou a apagar as chamas que destruíam rapidamente os barracos de madeira.

Segundo a Defesa Civil, as famílias afetadas pelo incêndio estavam sendo cadastradas pela prefeitura em programas habitação no final da manhã desta segunda. Muitas delas já estavam cadastradas por causa do incêndio que atingiu a favela no ano passado. Ainda de acordo com a Defesa Civil, a maioria dos moradores preferiu ir para casas de parentes e amigos em vez de abrigos municipais.

Porém, Fábio afirma que a prefeitura nunca se posicionou de maneira concreta com as famílias que residem no Moinho, pois desde o último incêndio, nada foi feito. “Se eles (prefeitura) quiserem, podem resolver. Tem dinheiro para isso. A gente vive aqui onde você está vendo. Aqui tem gente trabalhadora. Agora aparece muita gente que diz que vai fazer, que vai ajudar, vai dar o melhor. Amanhã você pode vir aqui que não vai ter mais ninguém”, aponta.

Saem dez e trazem quinze

Criança tenta salvar seus últimos pertences. Incêndio destruiu favela em poucos minutos

Ivo Itamar do Nascimento, morador do Moinho há 15 anos, ressalta que a Assistência Social da prefeitura cadastra as famílias, paga o “bolsa-aluguel” no valor de R$ 400,00, mas traz outras pessoas para morar na favela. Segundo Nascimento, esse incêndio dava para ser evitado se tivessem providenciado moradia para as famílias, que há 20 anos ocupam o terreno do Moinho.

“Em vez de a prefeitura tirar as pessoas daqui concedendo a elas moradia e depois demolir os barracos, ela está fazendo outro procedimento. Está tirando as pessoas e trazendo outras para colocar no mesmo lugar. Dava pra ter evitado, mas a assistência social tira dez e traz quinze para morar aqui”, argumenta Nascimento.

Só sobrou o RG

Aureliano José da Conceição trabalha doze horas por dia, de domingo a domingo, na empresa de tecelagem no Bom Retiro, centro de São Paulo, próximo a comunidade do Moinho.

Quando estava chegando no trabalho foi avisado pelo incêndio. “Eu tava saindo pra trabalhar quando o rapaz do serviço me avisou que a favela tava pegando fogo. Não deu tempo de salvar nada, só meu Documento (RG).”

A culpa é do Kassab

Raimundo Soares Dantas trabalha de manobrista durante a noite e está na favela há sete anos. Quando chegou em casa, por volta das 7h30 da manhã, já não tinha o que fazer. “Perdi geladeira nova, televisão e meus quatro cachorros, que estavam acorrentados, morreram carbonizados. O culpado disso é a prefeitura, é o Kassab. Agora só resta ter fé em Deus e tocar a vida adiante”, diz emocionado.

Veja as fotos de Marcelo Camargo da Agência Brasil

 

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