Policiais invadem ocupação e assustam moradores na Rua Mauá (SP)

Fonte: Rede Brasil Atual
Por Gisele Brito e Tadeu Breda

Moradores dizem que cerca 30 soldados armados procuravam suspeitos de roubo, mas a própria PM informa que nenhuma ocorrência foi registrada nas redondezas

Cerca de 240 famílias moram na ocupação na Rua Mauá, 340, desde 2007. Ameaças de despejo são constantes (Foto: Danilo Ramos.RBA)

São Paulo – Por volta das 14 horas de hoje (29) cerca de 30 policiais militares invadiram a ocupação sem-teto da Rua Mauá, 340, no centro de São

Paulo. Segundo os coordenadores do prédio, os soldados empunhavam armas de grosso calibre e assustaram os moradores. Oito viaturas da força tática participaram da operação.

“Eles disseram que tinham recebido uma denúncia de roubo. Mas é mentira. Eles fizeram para apavorar a ocupação. Parecia uma cena de guerra”, conta Nelson da Cruz Sousa, coordenador do Movimento de Moradia da Região Centro (MMRC), uma das três organizações populares que conduzem a ocupação. Os policiais só deixaram o prédio quando um advogado foi chamado.

A porteira do edifício, Maria Elisete Barbosa de Sousa, explica que a ação durou aproximadamente meia hora. Foi tempo suficiente para que a PM vasculhasse o pátio e três dos seis andares da ocupação e, diz, entrasse em alguns apartamentos. “Quando o morador abria a porta, eles já iam apontando o revólver. Acompanhei tudo pelas câmeras de segurança”, conta, lembrando que toda a ação ficou registrada. “A gente falou o tempo todo que ninguém estranho havia entrado no prédio, que éramos trabalhadores, que tínhamos família, mas eles não estava nem aí. Intimidaram grandão.”

A coordenadora do Movimento Sem-Teto do Centro (MSTC), Ivaneti Araújo, estava trabalhando fora da ocupação durante a ação policial e recebeu a notícia com revolta. “Acho que, se tem suspeita, a gente nunca fechou as portas, não somos coniventes com a criminalidade”, lembra. “Lá dentro tem criança, idoso, não podem fazer isso. O mínimo que têm de fazer é respeitar.” A advogada dos moradores, Rosângela Rivelli, recorda que esse tipo de operação é ilegal. “Não podem entrar lá sem mandado de busca.”

Segundo a assessoria da Polícia Militar, nenhuma ocorrência de roubo ou furto foi registrada na região da Luz, onde se localiza o edifício, e nenhum mandado de busca e apreensão foi emitido. Agora, os advogados do movimento pretendem preparar uma representação para o Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana (Condepe) e para a Ouvidoria da PM por abuso de autoridade e invasão.

A ocupação sem-teto na Rua Mauá começou em 2007. Naquele ano então, o edifício que um dia abrigou o Hotel Santos Dumont contabilizava mais de 15 anos de abandono. Os moradores contam que, quando entraram no imóvel, encontraram montanhas de lixo, além de ratos e baratas aos montes. Limparam o local, instalaram luz, água, interfone, câmeras de segurança, uma rígida organização e recomeçaram suas vidas, muitos com emprego novo.

Conseguiram inclusive, em 2011, impedir na Prefeitura a demolição do prédio, que já estava consumada. Foi quando os proprietários do imóvel ‘cresceram o olho’ o resolveram entrar na Justiça com o pedido de reintegração de posse. O juiz acatou a demanda nos primeiros meses de 2012 e desde então a briga pela propriedade do edifício, hoje revitalizado pelos movimentos sociais, vem sendo decidida no tribunal.

Se confirmado, o abuso policial ocorrido na tarde de hoje contra os sem-teto do bairro da Luz não será uma novidade em São Paulo. A ocupação Sete, prédio abandonado na rua da Independência, no bairro do Cambuci, zona sul, convive há algum tempo com o problema. Os cerca de 370 moradores do local garantem que a agressão fardada já virou rotina.

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